Além do horizonte, existem outros mundos a serem descobertos.
Lá, folhas não caem, elas flutuam.
Lá, o meio de transporte são pássaros que vem até você e com o suspiro de seu amor, neste mundo todos andam de mãos dadas lá é aonde a harmonia toma conta da natureza de todas as espécies viventes.
Lá, não colhemos flores, mas as flores colhem a gente.
Chegou o tempo de despertar e acreditar que esta vida vale apena ser vivida.
-Rhenan Carvalho-

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Via do Sul e Via do Norte

....tudo na vida é uma questão de atitude que temos diante das coisas, e não das próprias coisas em si mesmas.

A história a seguir é contada pelo Sheikh Qalandar Shah, no seu livro "Asrar-i-Khilwatia" (Segredos dos Solitários): No lado oriental da Armenia existia um pequeno vilarejo com duas ruas paralelas, chamadas respectivamente
Via do Sul e Via do Norte.

Um viajante, vindo de muito longe, passeou pela Via do Sul, e logo resolveu visitar a outra rua; entretanto, assim que chegou ali, os comerciantes notaram que seus olhos estavam cheios de lágrimas.

"Alguém deve ter morrido na via do Sul", disse o açougueiro para o vendedor de tecidos.
"Veja como este pobre estranho, que acaba de chegar dali, está chorando!"

Uma criança ouviu o comentário e, como sabia que a morte era algo muito triste, começou a chorar histericamente.
Pouco tempo depois, todas as crianças daquela rua estavam chorando.

O viajante, assustado, resolveu partir imediatamente.
Jogou fora as cebolas que estava descascando para comer - e esta era justamente a razão de ter os olhos cheios de lágrimas - e sumiu...

As mães, entretanto, preocupadas pelo pranto das crianças, logo foram procurar saber o que estava acontecendo, e descobriram que o açougeiro, o vendedor de tecidos, e - a esta altura - vários comerciantes estavam preocupadíssimos com uma tragédia que ocorrera na Via do Sul.

Logo os boatos começaram; e como a cidade não tinha muitos habitantes, em breve todos os que moravam nas duas ruas sabiam que alguma coisa horrível havia acontecido.

Os adultos começaram a temer o pior; mas preocupados com a dimensão da tragédia, resolveram não perguntar nada, a fim de não piorar a situação.

Um homem cego, que morava na Via do Sul e não entendia o que estava acontecendo, resolveu indagar:

"Por que tanta tristeza nesta cidade que sempre foi um lugar tão feliz?"

"Algo muito grave aconteceu na Via do Norte", respondeu um dos habitantes.
"As crianças choram, os homens estão com a testa franzida, as mães pediram para que seus filhos voltassem para casa, e o único viajante que visitou esta cidade em muitos anos, partiu com os olhos cheios de lágrimas.

Talvez a peste tenha chegado à outra rua." Não foi necessário muito tempo para que o rumor de uma doença mortal, desconhecida, havia atingido cidade.

Como, entretanto, o choro havia começado com a visita do viajante à Via do Sul, ficou claro para os moradores da Via do Norte que a peste tinha começado ali.

Antes que anoitecesse, os habitantes de ambas as ruas já haviam abandonado suas casas, e partiam em direção as montanhas do Leste.

Hoje, séculos depois, o antigo lugarejo por onde passou um viajante descascando cebolas, ainda continua deserto.

Não muito longe dali, surgiram duas aldeias, chamadas Via do Leste e Via do Oeste.
Seus habitantes, descendentes dos antigos moradores do vilarejo, ainda não se falam, já que o tempo e as lendas se encarregaram de colocar uma grande barreira de mêdo entre eles.

Comenta o Sheikh Qalandar Shah:

"tudo na vida é uma questão de atitude que temos diante das coisas, e não das próprias coisas em si mesmas.

Eu tenho sempre a possibilidade de descobrir a origem de um problema, ou escolher aumenta-lo de tal maneira, que termino sem saber onde ele começou, qual a sua dimensão, como pode afetar minha existência, e como é capaz de me afastar das pessoas que antes amava."

Paulo Coelho

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